Red Hat e Fedora: a história por trás de uma das bases mais importantes do Linux moderno

Fedora e Red Hat

Quem começa a usar Fedora normalmente percebe algo curioso logo nos primeiros dias. Os nomes dos dispositivos são diferentes, o sistema parece mais direto, menos “maquiado”, e várias tecnologias aparecem ali antes de virarem padrão em outras distribuições. Isso não é coincidência.

Fedora não surgiu do nada, nem é apenas mais uma distro no ecossistema Linux. Ele faz parte de uma história muito maior, ligada diretamente à Red Hat, uma das empresas mais influentes da história do software livre e do Linux corporativo.

Entender a origem da Red Hat e Fedora ajuda a entender por que o Fedora funciona do jeito que funciona, por que ele costuma estar à frente tecnologicamente e por que ele é tão respeitado no mundo profissional.

O surgimento da Red Hat e a profissionalização do Linux

No início dos anos 90, o Linux ainda era algo bastante artesanal. O kernel existia, os softwares existiam, mas montar um sistema funcional exigia muito conhecimento técnico. Instalar programas era difícil, dependências quebravam tudo e não havia um padrão claro.

Em 1993, Marc Ewing criou o que viria a se chamar Red Hat Linux. Pouco depois, Bob Young se juntou ao projeto, e a Red Hat começou a tomar forma como empresa.

A grande contribuição da Red Hat naquele momento foi a criação do RPM, o Red Hat Package Manager. O RPM trouxe um padrão sólido de empacotamento, instalação, atualização e remoção de softwares, com controle de dependências. Isso foi um divisor de águas para o Linux.

Desde cedo, a Red Hat entendeu algo fundamental. Empresas não querem compilar código, resolver conflitos manualmente ou lidar com instabilidade. Elas querem previsibilidade, suporte e segurança. Essa visão moldou toda a trajetória da empresa.

O conflito entre inovação e estabilidade

Durante vários anos existiu apenas uma distribuição. A Red Hat Linux atendia tanto usuários comuns quanto empresas. Com o tempo, isso virou um problema.

Usuários queriam versões mais novas de tudo. Kernel, bibliotecas, ambientes gráficos. Empresas queriam exatamente o oposto. Queriam mudanças mínimas, estabilidade extrema e suporte de longo prazo.

Manter uma única distro para esses dois públicos se tornou inviável.

A divisão que mudou tudo: nasce o Fedora

Em 2003, a Red Hat toma uma decisão estratégica que moldaria o futuro do Linux moderno. Ela encerra a Red Hat Linux tradicional e divide o projeto em dois caminhos distintos.

De um lado nasce o Red Hat Enterprise Linux, o RHEL. Uma distribuição voltada exclusivamente para o mercado corporativo, com ciclos longos, suporte pago, certificações e foco absoluto em estabilidade.

Do outro lado nasce o Fedora Project. Um projeto comunitário, gratuito, com ciclos rápidos e foco em inovação.

O Fedora passa a ser o upstream oficial da Red Hat. Em outras palavras, é no Fedora que as novas tecnologias surgem, amadurecem e são testadas antes de chegarem ao RHEL.

O Fedora como laboratório do Linux moderno

É aqui que o Fedora se diferencia de praticamente todas as outras distribuições populares.

O Fedora não tenta agradar todo mundo. Ele não esconde detalhes do sistema e não evita mudanças só por medo de quebrar hábitos antigos. Pelo contrário, ele assume o papel de laboratório.

Diversas tecnologias que hoje são padrão no Linux passaram primeiro pelo Fedora. SELinux, systemd, Wayland, PipeWire, Flatpak, Btrfs, DNF e agora o dnf5. Todas essas mudanças foram introduzidas, testadas e refinadas no Fedora antes de se tornarem base do RHEL e, depois, do restante do ecossistema Linux.

Isso explica por que o Fedora costuma usar kernels mais próximos do upstream, menos patches cosméticos e nomes de dispositivos mais ligados diretamente ao hardware e às camadas reais do sistema, como ALSA, PipeWire e o próprio kernel.

Enquanto algumas distribuições priorizam abstrações e uma experiência mais “polida”, o Fedora prioriza engenharia e alinhamento com o que está sendo desenvolvido no coração do Linux.

Onde entra o CentOS nessa história

Durante muitos anos, o CentOS foi um clone gratuito e binário compatível com o RHEL. Ele era amplamente usado em servidores, justamente por oferecer a estabilidade do RHEL sem custo.

O fluxo era simples. Fedora gerava inovação, RHEL consolidava, CentOS replicava.

Em 2020, a Red Hat muda esse modelo e cria o CentOS Stream. Ele deixa de ser um clone do RHEL e passa a ser uma etapa intermediária, ficando entre o Fedora e o RHEL.

O novo fluxo passa a ser Fedora, depois CentOS Stream, depois RHEL. Essa mudança gerou muita polêmica, mas do ponto de vista técnico, ela reforça ainda mais o papel do Fedora como origem real das mudanças.

A Red Hat na atualidade

Em 2019, a Red Hat foi adquirida pela IBM por 34 bilhões de dólares, a maior aquisição da história do setor de software até então. Mesmo assim, a Red Hat continua operando de forma relativamente independente.

Hoje, a empresa é referência absoluta em Linux corporativo, Kubernetes com o OpenShift, cloud híbrida e infraestrutura crítica. O RHEL é base para inúmeras outras distribuições empresariais, como Rocky Linux, AlmaLinux e Oracle Linux.

O Fedora continua sendo o campo de testes oficial, com forte envolvimento da comunidade, ciclos rápidos e um compromisso claro com o futuro do Linux.

Conclusão

Entender a história do Fedora e da Red Hat é entender por que o Fedora se comporta do jeito que se comporta. Ele não é uma distro “instável” nem experimental no sentido negativo. Ele é uma distro intencionalmente moderna, feita para empurrar o Linux para frente.

Se o Debian é conhecido pela extrema estabilidade e o Ubuntu pela experiência de produto, o Fedora ocupa um espaço único. Ele é onde o Linux acontece primeiro.

Por isso, usar Fedora é quase como estar acompanhando o desenvolvimento do Linux em tempo real, com qualidade, testes e uma filosofia muito clara por trás.

Não é para todo mundo. Mas para quem gosta de entender o sistema, trabalhar com tecnologia atual e estar próximo do upstream, faz todo o sentido.

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